Estudo no Brasil avalia se injeção contra o HIV a cada 4 meses consegue manter o vírus controlado e substituir o remédio diário

Uma pesquisa internacional de fase 3 testa no Brasil um tratamento injetável contra o HIV que pode reduzir as aplicações para três ciclos por ano. A proposta é manter o vírus controlado por mais tempo entre as doses, sem comprometer a segurança e a eficácia.
Entre os participantes está a antropóloga e ativista Pisci Bruja, primeira voluntária no país a iniciar a etapa que avalia o intervalo de quatro meses. O estudo ainda precisa demonstrar que a nova formulação funciona antes de uma eventual aprovação.

O que muda no tratamento
Chamado CUATRO, o estudo investiga novas formulações de cabotegravir e rilpivirina, dois antirretrovirais usados no combate ao HIV. A pesquisa pretende reunir cerca de 564 voluntários em diferentes países, com acompanhamento previsto até 2029. No Brasil, 65 participantes já foram incluídos e outros cinco estão em triagem, segundo o infectologista José Valdez Ramalho Madruga, pesquisador do Centro de Referência e Treinamento (CRT) em DST/Aids de São Paulo.
Cada ciclo inclui duas injeções intramusculares, uma de cada medicamento. Pisci, doutoranda em Saúde Coletiva pela Faculdade de Medicina da USP, já recebeu a primeira aplicação. O protocolo prevê exames laboratoriais, eletrocardiogramas e avaliações periódicas para identificar possíveis efeitos adversos e verificar se o vírus permanece controlado.
Os princípios ativos não são novidade: versões injetáveis de ação prolongada já foram aprovadas em outros países, com intervalos menores entre as doses. O CUATRO testa formulações de ação ultralonga para ampliar esse período para quatro meses.
Menos doses podem facilitar a rotina
A possibilidade de reduzir a frequência das aplicações tem relevância para quem enfrenta dificuldades com o tratamento diário. Esquecimentos e efeitos adversos podem interferir na rotina, enquanto o medo de revelar o diagnóstico ainda leva algumas pessoas a esconder os medicamentos.
Pisci conhece esse problema de perto e destaca o peso do preconceito na vida de quem vive com HIV. Em entrevista, afirmou: “Tomar uma medicação todos os dias não é uma questão simples, principalmente por causa do estigma em torno do HIV”.
Madruga também chamou atenção para as barreiras sociais que afetam a adesão ao tratamento. “Assim, quanto maior o intervalo entre as doses, melhor para o paciente”, disse o infectologista.
A pesquisa vai avaliar aspectos fundamentais para determinar se a nova formulação poderá ser uma alternativa segura:
- Manutenção do controle viral: verificar se o efeito dos medicamentos dura até a aplicação seguinte.
- Tolerabilidade: identificar possíveis efeitos adversos durante o acompanhamento.
- Comparação clínica: avaliar os resultados em relação ao esquema de tratamento já existente.
- Critérios de elegibilidade: determinar para quais pacientes os resultados poderão ser relevantes.
Os voluntários já entram no estudo com carga viral suprimida, ou seja, com o HIV controlado pelo tratamento. Um dos indicadores será a proporção de participantes com carga viral igual ou superior a 50 cópias por mililitro. Por isso, os resultados não poderão ser aplicados automaticamente a todas as pessoas que vivem com HIV.

Quando poderá chegar ao SUS?
As versões injetáveis de cabotegravir e rilpivirina já receberam autorização da Anvisa no Brasil para determinados pacientes, mas ainda não são oferecidas pelo Sistema Único de Saúde (SUS).
Atualmente, a rede pública disponibiliza principalmente esquemas de antirretrovirais de uso diário. Quando o tratamento mantém a carga viral indetectável de forma sustentada, a pessoa não transmite o HIV por via sexual. Esse princípio é conhecido como I=I (Indetectável = Intransmissível).
A eventual chegada da nova formulação ao SUS dependerá de resultados favoráveis no estudo, avaliação regulatória e análise da Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS (Conitec), seguida de decisão do Ministério da Saúde. Até lá, o esquema de quatro meses permanece experimental.

















