Pedido foi protocolado na Justiça de São Paulo no domingo (18) e inclui a PBKids e outras empresas do grupo.
Por Micaela Santos, g1 — São Paulo
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Loja da Ri Happy — Foto: Divulgação
A Ri Happy e outras cinco empresas do grupo entraram com um pedido de recuperação extrajudicial na Justiça de São Paulo, no domingo (18), para renegociar R$ 827,4 milhões em dívidas. O processo inclui a rede de brinquedos PBKids e aguardava decisão judicial nesta segunda-feira (19).
Do total de créditos incluídos no plano, credores que representam R$ 308,8 milhões já haviam aderido à renegociação, o equivalente a 42,38%.
- 🔎 A recuperação extrajudicial é um mecanismo que permite à empresa negociar diretamente com seus credores novas condições para pagar as dívidas. O acordo pode envolver, por exemplo, prazos maiores ou outras mudanças nas condições de pagamento. Diferentemente da recuperação judicial, a negociação é feita inicialmente fora do processo judicial tradicional, embora a empresa possa pedir à Justiça a homologação do plano.
No pedido apresentado à Justiça e obtido pelo g1, o grupo atribuiu as dificuldades financeiras a uma combinação de fatores, como os efeitos da pandemia, o aumento dos juros, a queda nas vendas do varejo e a concorrência de plataformas estrangeiras de comércio eletrônico.
Procurada pelo g1, a Ri Happy afirmou que a recuperação extrajudicial faz parte de um plano de reestruturação financeira e operacional iniciado após a aquisição pela BluSun Capital Partners, em 31 de agosto.
Segundo a empresa, as lojas físicas e os canais digitais continuam funcionando normalmente, com as equipes concentradas na preparação para a Black Friday e o Natal.
O Grupo Ri Happy tem mais de 2.600 funcionários e cerca de 292 lojas em operação no Brasil, entre unidades próprias das marcas Ri Happy e PBKids e lojas franqueadas.
Documentos anexados ao processo também registram o encerramento formal de filiais em cidades paulistas como Limeira, São Caetano do Sul, Taboão da Serra e Taubaté, além de unidades na capital paulista.
Entenda a crise da Ri Happy
No pedido de recuperação extrajudicial, a empresa afirma que os efeitos da pandemia, quando o fechamento de lojas e shopping centers prejudicou o faturamento, comprometeram sua capacidade financeira.
A companhia também cita os juros elevados, que encareceram o custo das dívidas bancárias, e a queda no poder de compra dos consumidores.
Outro fator apontado foi a frustração de uma renegociação de dívidas bancárias realizada em 2023. Na ocasião, o grupo havia renegociado cerca de R$ 292 milhões com bancos, mas, segundo a empresa, a recuperação econômica esperada não se concretizou nos anos seguintes.
A companhia também atribui parte da pressão sobre seus resultados à concorrência de plataformas internacionais de comércio eletrônico, que oferecem produtos a preços menores.
No documento, o grupo afirma que os impostos mais altos sobre os produtos vendidos por empresas brasileiras, em comparação com os cobrados sobre compras internacionais de baixo valor, deixam o varejo nacional em desvantagem na concorrência com plataformas estrangeiras.
Como exemplo, o pedido cita dados do Instituto Brasileiro de Planejamento e Tributação (IBPT), de 2024, segundo os quais a carga tributária chega a 45,93% para bicicletas, 46,49% para bolas de futebol e 52,78% para patins.
“A crise do Grupo Ri Happy se insere em um movimento mais amplo de deterioração das condições do varejo, que vem atingindo diversos participantes do setor”, diz o documento.
“A retração do consumo, o encarecimento do crédito e as dificuldades financeiras de varejistas, indústrias, importadoras e distribuidoras se propagam pela cadeia, pressionando as condições de fornecimento, os prazos de pagamento e a disponibilidade de capital de giro.”
Fundada em São Paulo, em 1988, a Ri Happy expandiu sua atuação ao longo das décadas e, em 2012, foi adquirida pelo fundo Carlyle Group, que também comprou a PBKids. Em agosto de 2026, o controle do grupo passou para a BluSun Capital Partners.
O que diz a empresa
Em comunicado, o Grupo Ri Happy afirmou que a nova gestão está adotando medidas para melhorar a liquidez, controlar custos e reorganizar a estrutura de capital — ou seja, a forma como a empresa financia suas operações e administra suas dívidas.
A companhia informou que realizou ajustes nas equipes corporativas e prepara uma mudança de sede.
Também disse que pretende melhorar o desempenho das lojas físicas e dos canais digitais e fortalecer o relacionamento com clientes, funcionários, fornecedores, franqueados, shopping centers e instituições financeiras.
Segundo a empresa, o objetivo é adequar os compromissos financeiros às necessidades da operação e garantir a continuidade do negócio no longo prazo.
O pedido foi apresentado 48 dias depois da aquisição do grupo pela BluSun Capital Partners, anunciada em 31 de agosto. A empresa passou a ser liderada por Héctor Nuñez, fundador da gestora, como CEO.
Para Bruno Medeiros Durão, advogado, empresário e fundador da DAP Advocacia (Durão, Almeida & Pontes), o resultado da recuperação dependerá da capacidade de adequar as dívidas ao dinheiro gerado pelas operações.
“A recuperação extrajudicial pode ser uma ferramenta importante para empresas que precisam reorganizar o endividamento sem interromper suas operações. Mas o pedido, por si só, não resolve o problema financeiro. O resultado depende da viabilidade do plano, da adesão dos credores envolvidos e da capacidade da companhia de gerar caixa suficiente para cumprir os compromissos renegociados e manter o negócio funcionando”, afirma.
Segundo o advogado, manter as lojas abertas não significa necessariamente que a empresa tenha dinheiro suficiente para pagar todas as suas obrigações.
Por conta disso, a reestruturação precisa levar em conta os juros, os prazos das dívidas, os custos operacionais e os recursos necessários para manter a atividade.
“A reestruturação só produz resultados consistentes quando o acordo financeiro vem acompanhado de medidas concretas de gestão. É preciso compatibilizar o pagamento das dívidas com a operação, preservar recursos para o funcionamento do negócio e estabelecer metas realistas”, diz Durão.
Ri Happy é a segunda grande empresa de brinquedos a recorrer à Justiça
A Ri Happy é a segunda grande empresa do setor de brinquedos a recorrer à Justiça para reorganizar suas dívidas.
Em maio, a fabricante Estrela, conhecida por produtos como Banco Imobiliário, Autorama, Genius e Susi, informou que havia entrado com um pedido de recuperação judicial.
Entre os fatores apontados pela Estrela para justificar suas dificuldades estavam os juros elevados, a maior dificuldade de acesso a empréstimos e as mudanças nos hábitos de consumo, com maior disputa pela atenção e pelos gastos dos consumidores com jogos e entretenimento digital.
*Reportagem em atualização

















